Surf e mulheres negras
- Negritude Outdoor

- 17 de jan.
- 6 min de leitura
Interseccionalidade e as camadas invisíveis por trás dessa prática
Recentemente, dados do Check-up de Bem-Estar 2025, de uma pesquisa conduzida pela Vidalink, revelaram que apenas 33% das mulheres negras praticam exercícios físicos ao menos uma vez por semana. O dado denuncia uma realidade que não tem a ver apenas com vontade de se exercitar, mas está intimamente ligada aos efeitos da escravidão, do racismo e do sexismo estruturais no Brasil. As mulheres negras ocupam o lugar mais baixo na pirâmide social brasileira: são quase sempre as que mais trabalham, mas ganham menos e têm menos tempo para si mesmas.
Para além de tentar esmiuçar esses dados, chamo a atenção para como eles revelam a realidade de mulheres negras, atravessadas por questões de gênero, raça e classe. É nesse sentido que quero escrever aqui sobre algo que atravessa a minha realidade como mulher negra, classe média, doutoranda em antropologia e surfista nas horas vagas.
O surf é um esporte milenar que, segundo alguns dados, teria surgido no Peru ou na Polinésia, duas regiões cercadas pelas águas do Oceano Pacífico. Os primeiros relatos afirmam que o surf foi introduzido no Havaí por um rei polinésio. Porém, há registros de que, antes dos havaianos, os peruanos já usavam uma canoa de junco para deslizarem sobre as ondas da praia. De forma geral, os diversos povos do Pacífico têm, até hoje, relações vitais com o mar, o que se reflete em seus modos de vida.
Quando se fala sobre onde o surf foi criado, muitas pessoas acreditam que tenha sido no Havaí. O que se sabe é que os polinésios eram grandes marinheiros; por isso, conseguiram cruzar o Equador e chegar às ilhas havaianas. No Havaí, eles deram origem a uma civilização, adaptando a cultura e o modo de vida, inclusive quanto à prática das ondas. A atividade não era restrita a um grupo; portanto, participavam mulheres, homens, jovens e crianças. Enquanto os nativos havaianos tinham o hábito de surfar, os europeus nem imaginavam que essa prática existia. Por isso, quando se fala sobre a origem do surf, a descendência não é europeia.
No entanto, a chegada de europeus no Havaí mudou radicalmente a forma como o surf era praticado. Com o tempo, a prática foi se tornando cada vez mais um esporte competitivo, masculino, elitista e branco. Por muitas décadas, quase não se via mulheres praticando o esporte ou sendo remuneradas como os surfistas homens de competição. Nos últimos anos, nota-se um aumento no número de mulheres que surfam no Brasil e no mundo e, com isso, várias delas denunciam o sexismo no esporte e nas águas. Apesar da presença de alguns grupos importantes, como os Surfistas Negras, Black Girls Surf, entre outros, ainda temos
pouca discussão sobre o racismo no surf.
Nasci em Minas Gerais e, como uma boa mineira, contava os dias para as férias e os feriados perto do mar. Apaixonada pelas águas salgadas, sempre disse que, quando fizesse 18 anos, iria viver perto do mar. E foi o que fiz. Ao recém-completar 18 anos, me mudei para Florianópolis para fazer cursinho pré-vestibular e, logo depois, me estabeleci de vez para cursar Ciências Sociais na UFSC. Finalmente, estava perto do mar e podia estreitar os laços com esse ser poderoso. Alguns anos depois, comprei a minha primeira prancha, mas por falta de companhia, acabei nunca me dedicando de fato à prática do surf.
Os anos se passaram; acabei indo morar na Espanha e, em 2011, voltei para Floripa. Na época, conheci o meu companheiro atual, um mineiro que estava aprendendo a surfar. Em 2013, comprei outra prancha, uma roupa de borracha (pra aguentar o frio de Floripa) e, finalmente, comecei a minha jornada no surf. Estava muito feliz por estar realizando esse sonho antigo. Morava perto da praia e ia praticamente todos os dias. Nesse processo, descobria que o surf é difícil e demorado, mas, principalmente, me deparava com outsides repletos de homens e mulheres brancos. Eu, literalmente, não me via no esporte e foi assim que as crises de ansiedade chegaram. Elas revelavam muitas outras coisas sobre a minha vivência, mas me faziam refletir sobre o desafio de ser mulher negra no mar.
Via e vejo, até hoje, muitas mulheres brancas falando sobre suas dificuldades no esporte, que é, de fato, muito sexista. Mas, na minha experiência, aprendi que ser mulher e negra acrescentava uma camada adicional ao desafio de surfar. O conceito de interseccionalidade, cunhado pela feminista negra Kimberlé Crenshaw e amplamente utilizado por várias feministas negras, me levava a compreender que a interseção entre gênero e raça fazia da minha experiência no surf algo bastante diferente daquela das mulheres brancas.
A interseccionalidade é um conceito que analisa como diferentes formas de opressão (como racismo, sexismo, classismo, homofobia, etc.) não atuam separadamente, mas se intersectam e se potencializam, criando experiências únicas de discriminação. No feminismo negro, isso mostra que a vivência da mulher negra não é apenas a soma de "ser mulher" + "ser negra", mas uma experiência específica, distinta da vivida pela mulher branca e pelo homem negro.
Naquela época, tentei fazer parte de grupos de mulheres surfistas, mas continuava me sentindo fora, ou, para usar o termo da feminista negra Patricia Hill Collins, fora-dentro (outsider-within). A autora utiliza o termo para explicar a vivência de mulheres negras na universidade e na intelectualidade, quando olham para os lados e não veem pessoas como elas fazendo parte. No surf, o que sentia e sinto muitas vezes, ao olhar para os lados e não ver quase nenhuma outra pessoa negra surfando, é que eu não pertenço.
Mesmo com o boom de mulheres surfando, mulheres negras não estão nos maiores campeonatos, nas capas das revistas de surf, nas surf trips, nem nos programas de TV dedicados ao surf. Apesar de existirmos no surf (e o Surfistas Negras está aí para mostrar os vários talentos de mulheres negras), somos invisíveis no imaginário do esporte. Ou seja, há pouca representatividade de mulheres negras surfando, o que impacta diretamente a autoestima, a confiança e a capacidade de se imaginar pegando ondas.
Eu sou uma surfista intermediária, com pouco tempo para me dedicar ao esporte, mas, com base nos meus 13 anos de contato com o esporte em diversas partes do Brasil e do mundo, posso dizer que ainda somos uma minoria no mar, e isso afeta a forma como surfamos e nos relacionamos com ele. Ao longo dos anos, fui avançando na técnica do esporte, insistindo em estar lá, mas me dei conta de que, ao surfar em locais como Florianópolis e, hoje, na Austrália (onde moro atualmente), com line-ups dominados por homens e mulheres brancas, a minha falta de pertencimento abala a minha confiança e faz com que eu surfe mal. Percebo nitidamente que, quando surfo em locais com maior presença de pessoas não brancas, como na Bahia (onde morei e surfei por um ano e meio durante a pandemia do Covid-19) e em algumas viagens recentes para a Indonésia, Filipinas e Fiji, a sensação de pertencimento me traz calma, confiança e
sessões de surf imemoráveis.
Não quero, com esse texto, dizer que o racismo e o sexismo determinam a possibilidade de surfar e se desenvolver no esporte, mas influenciam, de formas invisíveis, típicas do racismo estrutural brasileiro, as experiências de mulheres negras que se aventuram nesse esporte. A minha experiência é a de uma mulher negra que nunca teve a pretensão de viver do surf ou de se profissionalizar, mas, ao olharmos para o surf profissional e nos atentarmos às narrativas de várias surfistas negras, entendemos que o racismo as afeta de forma gritante. Seja pela falta de interesse dos patrocinadores em apoiar atletas negras, pela falta de recursos para comprar equipamentos, viajar e se desenvolver no esporte, ou pelos
sentimentos mais profundos que só nós, mulheres negras, conhecemos ao olharmos para os lados e não nos vermos. A interseção entre racismo, sexismo e classismo (para não mencionar gordofobia, fobia LGBTQIA+, capacitismo,etc.) influencia muito a nossa vivência no esporte.
Nos últimos anos, por meio da terapia, fui tomando consciência de tudo isso e sigo firme nas águas, lutando pelo nosso espaço. Cada vez que entro no mar, tento não olhar para os lados, mas me conectar com a menina que sempre quis morar perto da praia e estreitar os laços com o oceano; me conecto também a toda a ancestralidade negra e os saberes quilombolas e indígenas que me ensinam, como antropóloga, que o mar está vivo e precisamos aprender a conversar com ele.
PhD candidate em antropologia na University of Queensland, Australia
Surfista por diversão nas horas vagas, viajante e amante da diversidade humana
Referências
Collins, Patricia H. (2000). Black feminist thought: Knowledge, consciousness, and the
politics of empowerment (2nd ed.). Routledge.
Crenshaw, Kimberle (1991). Mapping the margins: Intersectionality, identity politics, and violence against women of color. Stanford Law Review, 43(6), 1241–1299.
Você sabe qual é a origem do surf? Disponível em











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