A natureza não é de todos e antirracismo não é inclusão: é ruptura
- Negritude Outdoor

- 26 de dez. de 2025
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Por: Rafael Precioso
A crítica à composição racial dentro de espaços naturais é, por natureza, uma crítica de ruptura. Não se trata de um ajuste fino, de uma inclusão cosmética ou de um convite à assimilação dentro das estruturas já dadas. Trata-se de questionar quem pode acessar, ocupar, narrar e decidir sobre a natureza, e sob quais condições históricas, simbólicas e materiais isso ocorre.
Por isso, não existe antirracismo possível sem o rompimento com os laços coloniais que estruturam esses espaços/laços que não são apenas do passado, mas continuam operando no presente.
Os espaços naturais, frequentemente romantizados como neutros, universais ou “de todos”, foram historicamente construídos como territórios racializados. Desde o período colonial, a natureza foi apropriada como recurso econômico e como cenário simbólico de poder. Florestas, serras, rios e trilhas foram transformados em paisagens “selvagens” a serem dominadas, exploradas ou contempladas e quase sempre sob a lógica do colonizador branco, europeu, masculino e proprietário. Povos indígenas e populações negras, que mantinham relações ancestrais, espirituais e comunitárias com esses territórios, foram expulsos, silenciados ou reduzidos à condição de mão de obra.
Quando observamos hoje a composição racial em atividades como montanhismo, ecoturismo, trekking, esportes de aventura ou mesmo em políticas de conservação ambiental, percebemos que essa herança colonial não foi superada. Ela apenas mudou de forma. A presença majoritária de pessoas brancas nesses espaços não é fruto do acaso ou de “preferência individual”, mas de processos históricos de exclusão, que envolvem acesso desigual à terra, ao tempo livre, à renda, à segurança, à informação e à legitimação simbólica do pertencimento.
É nesse ponto que a crítica antirracista se distancia radicalmente da assimilação. A assimilação pressupõe que pessoas negras e indígenas devem apenas “entrar” nesses espaços tal como eles são, adaptando-se às normas, linguagens, estéticas e valores já estabelecidos. A ruptura, ao contrário, pergunta: por que esses espaços são assim? Quem definiu essas regras? Quem ficou de fora para que essa configuração se tornasse norma?
Não existe antirracismo sem ruptura porque o racismo não é um desvio pontual, ele é estrutural. Ele organiza o acesso aos territórios, define quem é visto como visitante legítimo e quem é visto como intruso, quem é considerado aventureiro e quem é considerado suspeito. Em muitos contextos, corpos negros em espaços naturais ainda são lidos como corpos fora de lugar, corpos que precisam justificar sua presença. Essa leitura não é individual; ela é social, histórica e política.
Romper com os laços coloniais significa questionar também a forma como a natureza é narrada. O discurso dominante costuma separar “natureza” e “cultura”, como se povos negros e indígenas não fossem produtores de conhecimento ambiental, como se suas práticas fossem primitivas ou folclóricas, enquanto o saber técnico ocidental é tratado como universal e científico. A crítica antirracista rompe com essa hierarquia e afirma que há múltiplas epistemologias sobre o território, o cuidado ambiental e a relação com a terra.
Essa ruptura é incômoda porque desloca privilégios. Ela exige que pessoas brancas reconheçam que seu acesso facilitado a espaços naturais não é apenas resultado de mérito individual ou gosto pessoal, mas de uma história que lhes foi favorável. Exige reconhecer que políticas ambientais, quando descoladas da justiça racial, podem reproduzir violências coloniais como a expulsão de comunidades tradicionais em nome da “preservação”, sem diálogo ou reparação.
Ao mesmo tempo, a ruptura não significa negar a presença de pessoas brancas nesses espaços, mas desnaturalizar sua centralidade. Significa abrir espaço para outras narrativas, outras lideranças, outras formas de vivenciar a natureza.
Significa apoiar iniciativas conduzidas por pessoas negras e indígenas, reconhecer o direito ao território, as práticas de educação ambiental antirracistas e as experiências que não tratam a natureza como mercadoria ou palco de performance individual.
A assimilação é confortável porque não exige transformação profunda. A ruptura é necessária porque exige mudança estrutural. Ela questiona quem lucra, quem decide, quem aparece nas imagens de divulgação, quem é convidado a falar como especialista e quem permanece invisível. Ela desmonta a ideia de que basta “diversificar o público” sem alterar as bases coloniais que sustentam esses espaços.
Portanto, afirmar que não existe antirracismo sem romper com os laços coloniais é reconhecer que a luta não é apenas por presença, mas por redefinição de sentido. Não se trata apenas de ocupar a natureza, mas de reconstruir a relação com ela. Uma relação que reconheça a história de violência e exclusão, mas que também afirme a possibilidade de outros futuros onde a natureza não seja território de privilégio, e sim espaço de memória, justiça, pertencimento e vida digna para todos.
Essa crítica é, inevitavelmente, uma ruptura. Porque o colonialismo não se reforma: ele se rompe. E é somente a partir dessa ruptura que o antirracismo deixa de ser discurso e passa a ser prática transformadora, inclusive e sobretudo nos espaços naturais.





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