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O silêncio como herança colonial...

O silêncio como herança colonial e a urgência da palavra: “Seu silêncio não vai te proteger”.


Essa semana aconteceu um episódio bastante característico na pagina do Negritude Outdoor, que me relembrou dessa frase.


Uma cena típica: um homem negro, graduado e pós graduado no estudo de ciências sociais e raça, escrevendo um texto embasado em seus estudos e conhecimentos, sendo taxado como raso, debochado, inapto a tratar do assunto que dedicou anos de estudo.


Me peguei, como em muitos momentos da vida, novamente com essa frase de Audre Lorde em mente, frase que atravessa o tempo porque é um indicador sobre o que é viver a experiência negra no mundo pós colonial.


O silêncio é uma arma usada há centenas de anos como ferramenta de opressão contra mulheres e pessoas negras. Se você se identifica com algum grupo que não ocupa as posições típicas de poder, com certeza se lembra daquela sua fala que “foi muito rude”, “não foi acadêmica o suficiente”, “pareceu deboche”, “não foi no momento certo”, dentre muitos outros rótulos.


Não são coincidências, mas sim estratégias bem antigas de silenciamento reformuladas para servir aos mesmos interesses. Nossos ancestrais absorveram essas e muitas outras formas de silenciamento, de tentativas de desumanização, de convencimento de que nossa expressão e capacidade de elaboração sobre a própria realidade eram na verdade armas muito afiadas com as quais a sociedade poderia se ferir e com as quais não poderia lidar, e então, considerando que suas armas seriam tão danosas para a sociedade, as pessoas negras foram criando estratégias de silêncio na tentativa de viver com dignidade e essa herança foi passada de geração em geração.


O silêncio nunca foi um lugar seguro, foi e segue sendo uma estratégia de sobrevivência imposta, apresentada como prudência, mas sustentada pela violência.


Relembro minhas leituras de Memórias da Plantação, de Grada Kilomba, que retrata de forma genial o silêncio como um projeto antigo e muito bem articulado. Kilomba aborda o silêncio como uma ferramenta ativa do poder colonial, ligada ao silenciamento sistemático de corpos negros e racializados. A alegoria da máscara — que remete à figura histórica de Anastácia, que conhecemos muito bem por aqui no Brasil — deixa isso explícito: a mordaça não era apenas punição física ou controle do corpo. Era um dispositivo para impedir a fala, o pensamento, a elaboração. Calar era negar humanidade. O que temos a dizer que assusta tanto?


Kilomba aponta que o silêncio transforma corpos negros em objetos de fantasia branca. Quando não falamos, falam por nós. Quando não nomeamos, somos nomeadas. O silêncio, então, não é vazio: é um espaço ocupado por projeções, estereótipos e narrativas que não nos pertencem.


Essa lógica não ficou no passado colonial. Ela se atualiza o tempo todo. Hoje, o silenciamento aparece quando somos constantemente colocados à prova: nunca articulados o suficiente, nunca acadêmicos o bastante, nunca calmos o bastante. Nosso tom é questionado, nossa fala é deslegitimada antes mesmo de ser ouvida. A mensagem é clara: fale menos, ajuste-se, espere o momento certo, não nos desgaste.


Audre Lorde é direta ao nomear o custo disso. O silêncio não protege. Ele adoece. Aquilo que não é dito se transforma em tensão crônica, ansiedade, depressão, auto-ódio, traição de si mesmo. O corpo guarda aquilo que a linguagem foi impedida de elaborar.


Lélia Gonzalez nos ajuda a entender que o silenciamento não atua sozinho. Ele caminha junto com a produção sistemática de imagens, valores e sentidos que associam tudo o que é negro ao negativo. Em Tornar-se negro, Lélia aponta como a sociedade brasileira foi organizada a partir de um delírio branco — um delírio que constrói o negro como problema, como excesso e como falta, como ameaça.


Nesse imaginário, o que é negro é feio, errado, violento, confuso, inferior. E o que é branco se coloca como medida do humano, do racional, do belo, do universal. Essa lógica não apenas nos oprime de fora — ela tenta se infiltrar por dentro. Passa a operar no modo como somos vistos, tratados e, muitas vezes, no modo como aprendemos a nos ver. Dessa forma, o que um negro teria de relevante pra dizer? Por que esse sujeito teria a audácia de se manifestar?


Falar, então, não é apenas um ato de expressão individual. É um gesto político. É recusar a herança colonial que tentou nos convencer de que existir plenamente era ofensivo demais. Romper com a lógica que nos quer quietos, dóceis e gratos por qualquer espaço concedido.


Todas essas pensadoras propõem que a palavra é um caminho de cura e descolonização. Recontar a própria história, a partir de si, desloca o lugar do trauma. A fala transforma memória em possibilidade, dor em linguagem, silêncio em ação. Não porque falar seja simples ou indolor, mas porque permanecer calado tem um custo alto demais.


Minhas próprias percepções passam por esse lugar. Quantas vezes o silêncio foi confundido com paz? Quantas vezes engoli palavras para não parecer “demais”? Quantas vezes me convenceram de que não era o momento, de que faltava repertório, de que alguém mais autorizado deveria falar? O silêncio parecia proteger relações, mas o custo sempre era emocionalmente alto.


Entender que o silêncio não me protegeu, assim como nunca protegeu os nossos, nos ajuda a reconstruir a nossa própria imagem, a entender que devemos agir de acordo com a nossa capacidade de viver de forma digna e plena. Falar não garante segurança, mas cria possibilidade de existência. Dizer o que precisa ser dito, mesmo com medo, mesmo com o desconforto de ser visto (e talvez julgado) pelo outro, é também uma forma de resistência porque rompe a mordaça simbólica que ainda insiste em nos acompanhar.


Audre Lorde, Grada Kilomba, Lelia Gonzalez e tantas outras intelectuais que não foram citadas aqui mas que fizeram o uso de sua palavra com coragem, conhecimento e maestria se encontram nesse ponto: o silêncio nunca foi neutro. Falar é disputar narrativa, território e humanidade.


Que a gente lembre, sempre, que nosso silêncio não vai nos proteger, mas que nossa palavra pode abrir caminhos.


“Paz sem voz não é paz, é medo”.


Artigo de Isabella Silva.



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