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Seu ecoturismo também é colonialidade: natureza não é mercadoria, é território de memória, conflito e disputa

O ecoturismo segue colonizando. E os ambientes naturais, muitas vezes coroados com os parques nacionais e estaduais como meros espaços de lazer de sujeitos urbanos brincando de cosplay de Indiana Jones e Lara Croft, com todas as suas concessões e seus discursos “verdes” seguem o mesmo rumo.


O que muda em relação ao passado colonial de exploradores, desbravadores, e enfim, Bandeirantes, é apenas a embalagem: hoje tudo é produto. Vende-se natureza com selo de “mínimo impacto”, “experiência premium”, “vivência consciente”, “oca gourmet”, “aventura outdoor”.


A colonialidade aprendeu a se comunicar bem. Aprendeu a falar a língua da sustentabilidade sem jamais romper com sua lógica central: dominação, extração, violência e apagamento.


O filósofo indígena do povo Krenak, Ailton Krenak, já nos alertou que o mundo moderno inventou uma ideia de humanidade separada da Terra. Uma humanidade que se imagina fora da natureza e, por isso, autorizada a explorá-la.


Já o filósofo quilombola, Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, aprofunda essa crítica ao nos lembrar que o colonialismo não destruiu apenas territórios, mas modos de existir, impondo uma monocultura do pensamento que transforma tudo em recurso, paisagem inerte ou mercadoria. A natureza, nesse projeto, deixa de ser relação e passa a ser cenário, e lamento dizer, nesse universo das coisas a sua selfie tem o peso de um tiro da espingarda de um bandeirante!


É preciso dizer sem rodeios: a crítica não é ao caminhar, ao estar, ao se reconectar com a terra. Mas atenção: Nós somos natureza! Sendo assim, o que fazemos nela está sendo feito em nós! A questão é como, por que e a partir de quais valores essas práticas se organizam hoje.


Obviamente, no nosso contexto de América Latina (Améfrica Ladina) não há comparação possível entre a vivência ancestral de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, caiçaras ou andinos com as práticas recreativas e esportivas modernas, moldadas pela lógica urbana, pelo consumo rápido e pela busca de performance, medalhas, selfies e validação social. Então, diante dessa encruzilhada, o mínimo que devemos fazer é reavaliar nossas práticas e nossa ocupação de territórios e espaços com base em valores ancestrais, que não são apenas valores ambientais já que são inclusive culturais, na esperança de ressignificar nossas experiências e vivências atuais, para enfim compreender uma questão muito importante: o conjunto e a diversidade de valores culturais da natureza. Isso exige coragem, estudo e responsabilidade, e não é sobre ter, é sobre fazer, para finalmente simplesmente ser.


O colonialismo sequestrou caminhos físicos e intelectuais ancestrais. Peabirus viraram avenidas. Territórios sagrados viraram parques com catraca. Lugares de vida viraram “destinos”. Em diferentes escalas tudo foi e está constantemente sendo apagado ou cooptado pelo desenvolvimento, sem realmente conduzir ao mais importante que é o envolvimento, para usar o jogo de palavras de Nego Bispo. Quando não, viraram cenários para corridas de aventura, expedições patrocinadas ou experiências de fim de semana especialmente organizadas e pensadas para quem pode pagar. São verdadeiros safaris exóticos nos vales e cumes mais altos da Mantiqueira, nas chapadas do nordeste e centro-oeste brasileiro, nos Andes, na Patagônia, na Amazônia ou no Everest. Ontem eram bandeirantes e colonos; hoje são ecoturistas conscientes ou muito pouco conscientes, legionários do “mínimo impacto”, coachs good vibes ou nem tanto assim, mas todos com uma coisa em comum: sempre exalando branquitude, mesmo com peles mais escuras, e repetindo a mesma fábula civilizatória com nova estética e com curiosos filtros de Instagram.


Abdias Nascimento, intelectual negro e pai do quilombismo, nos ensinou que o racismo é estrutural e civilizatório. Ele organiza o espaço, o poder, a narrativa. O que nos leva a caminhar para uma outra esfera interligada do pensamento negro brasileiro, com a historiadora Beatriz Nascimento, que nos mostrou como o território é central para a construção da memória negra e da liberdade, especialmente quando pensamos os quilombos não como passado, mas como tecnologia política de vida.


Só que aquilo que vemos hoje nos ambientes naturais, e inclusive em parques nacionais e estaduais brasileiros, é o oposto disso: populações tradicionais expulsas em nome da preservação, enquanto até mesmo condomínios de luxo, ilhas privadas e concessões empresariais prosperam dentro de áreas protegidas. Eu falo aqui por exemplo dos territórios tupinambás históricos de Paraty e Angra dos Reis, que além da natural presença de outros povos originários é também área de quilombos, e desde muito tempo demonstra de forma gritante o embate que quero ilustrar.


Mas quem ganha quando somos ensinados a nos pensar como não pertencentes à natureza? Quem lucra quando acreditamos que “não levamos nada e não trazemos nada”, como se não fôssemos parte viva do mesmo corpo-terra? Essa separação é uma pedagogia colonial. Aimé Césaire, intelectual martiniquense e co-criador do movimento Negritude, já denunciava que o colonialismo não desumaniza apenas o colonizado, mas embrutece o colonizador, normalizando a violência como método de organização do mundo, e dito isso, o relacionamento violento está em tudo, até mesmo de forma sutil na pretensa mudança conciliadora dos valores da colonialidade, no pretenso questionamento inocente de toda a nossa construção intelectual quando desafiamos a coerência da (i)lógica vigente. A violência está nas estratégias e estratagemas paternalistas criados e recriados para vigiar, punir e silenciar narrativas e conhecimentos não-brancos e contracoloniais, normalizando o estado das coisas.


E como exemplo, voltamos pra chamada sustentabilidade, que como bem apontam Krenak e Nego Bispo, não dá conta de resolver os problemas criados por bem sabemos quem. Ela virou mais um produto na prateleira do capitalismo verde, enquanto o agronegócio segue a passos largos e gulosos, cada vez mais pop e criminoso. Para o bem ou para o mal, a sustentabilidade só é um produto que fica ali, ao lado do “montanhismo consciente”, do “turismo regenerativo” e do “consumo responsável”. Tudo muito bonito, imagético, fotogênico, e profundamente vazio de ruptura. Consciência real exige perguntar por que práticas não coloniais foram apagadas, silenciadas e criminalizadas. Exige reconhecer o epistemicídio denunciado pela filósofa negra Sueli Carneiro como um dos pilares da colonialidade.


Baixem suas armas, acalmem seus dedos ávidos por comentar nas redes sociais, porque o que escrevo aqui não se trata de demonizar atividades ao ar livre. Trata-se de denunciar a história única que passou a organizar esses espaços a partir da colonização: uma história de conquista, desafio, superação e domínio: uma história de e para a branquitude e seus dóceis servos.


Quais outros povos entendiam uma montanha ou floresta como algo a ser vencido? Quais culturas viam a terra como adversária a ser conquistada e explorada? E não vale usar exemplos genéricos de migrações antigas para justificar práticas coloniais modernas, pois isso é misturar alhos com bugalhos, e, pior, é apagar a especificidade histórica do colonialismo europeu, um projeto criminoso de ocupação, exploração e morte, que alimenta e é alimentado pelo racismo, machismo, epistemicídio, capitalismo e pela ideia de propriedade privada, além de desigualdade econômica e estadolatria, esta última característica agindo tal qual um culto servil do que em si é pilar mantenedor de toda uma estrutura necropolítica cada vez mais assassina.


Este artigo nasce a contragosto após a enxurrada de críticas de um outro artigo de minha autoria chamado “O montanhismo e as atividades ao ar livre estão enraizados no colonialismo”, uma provocação muito bem sucedida para mostrar que montanhismo e atividades outdoor não são neutros, eles nasceram e se desenvolveram dentro de uma lógica colonial de ocupação, exploração e apagamento.


Críticas violentas e esperadas, mesmo que vindas de grupos e pessoas supostamente interessadas e engajadas com “causas verdes”. Digo esperadas pois o ativista negro estadunidense, Malcolm X (Hajj Malik el-Shabazz), realçou muito bem que devemos desconfiar da falsa cordialidade progressista e liberal (com toda a força explícita dos termos). Ou seja, quando a branquitude não é atendida de forma mansa, servil e pedagógica, o incômodo aparece: nós negros somos chamados de arrogantes, debochados, lacradores e até mesmo violentos. Mas o problema nunca foi o tom. O problema é o conteúdo. É a recusa em aceitar que há outras formas de ser e estar no mundo que não pedem licença à colonialidade.


Mas o artigo só nasceu porque não foi escrito para os opositores do primeiro, e sim para os que entendem e/ou pretendem se aprofundar na questão principal: a crítica ao uso colonial da natureza não é um ataque ao caminhar, mas ao sentido que foi imposto a esse caminhar. É um chamado para retomar o contato com a terra a partir de uma perspectiva que denuncie e renuncie o mal histórico e presente do colonialismo e da colonialidade. Que reconheça que esses territórios são vivos, políticos, atravessados por disputas, memórias e corpos racializados.


E especialmente, para todos que se leem como amefricanos ladinos da diáspora, que são sim ligados à esta terra através das mais variadas dinâmicas históricas e culturais, é importante sempre saber que um incômodo e uma bandeira de ameaça surgem quando somos cultos, quando não nos omitimos em fazer conhecimentos e questionamentos circularem entre os nossos, e principalmente, quando estamos em espaços naturais em situação de poder, consciência coletiva e controle narrativo.


Em resumo, não se trata de incluir, mas de desobedecer. Não se trata de adaptar práticas coloniais, mas de rompê-las. Natureza não é mercadoria! Não é palco! Não é produto! É território, e território nunca foi neutro!


“J'suis un démon magnifique

Ça sera toujours nous, les coupables

Coupables d'être africains

Coupables comme Kadhafi ou comme Nelson Mandela...”

Abderraouf “Soolking” Derradji


Por Denilson Silva, sociólogo, especialista e pesquisador em África e suas diásporas, além de criador do Negritude Outdoor.


Referências:


KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


SANTOS, Antônio Bispo dos. Colonização, quilombos: modos e significações. Brasília: INCTI/UnB, 2015.


NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.


NASCIMENTO, Beatriz. Beatriz Nascimento, quilombola e intelectual: possibilidades nos dias da destruição. São Paulo: UCPA Editora, 2018.


CARNEIRO, Sueli. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011.


MALCOLM X; HALEY, Alex. A autobiografia de Malcolm X. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. São Paulo: Veneta, 2020.


KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.



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