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A culpa é de quem?

Trilhas pichadas, vandalismo e desrespeito à natureza não são apenas “problemas de comportamento individual”. São sintomas de algo mais profundo: um projeto coletivo que falhou em formar consciência.


Costumamos reagir rápido, apontando o dedo para quem picha, quebra placas ou deixa lixo pelo caminho. É confortável responsabilizar o indivíduo isolado. Mas essa pergunta precisa ser feita com honestidade: quem formou ou deixou de formar esse indivíduo?


Vivemos em um Estado que nunca assumiu, de fato, o compromisso com uma educação ética, crítica e relacional, não no sentido da filosofia positivista, mas de uma educação que ensine convivência, pertencimento e respeito mútuo. Uma educação que ajude a compreender que a natureza não é cenário, nem recurso infinito, nem parque de diversões descartável é território de vida.


É óbvio que, em um sistema onde a educação é garantida de forma igualitária, acessível e contínua para todas as pessoas, a responsabilização individual faz sentido. Nesse contexto, sim, é possível e necessário culpar o indivíduo pelos seus atos, porque ele teve acesso à informação, ao debate e às ferramentas para escolher diferente.


Mas essa não é a realidade que vivemos.


Sim, existem leis ambientais. Existem regras de preservação. Mas sejamos francos: quem as conhece?


Essas leis quase sempre ficam restritas a documentos técnicos, placas mal posicionadas ou discursos fechados em ambientes frequentados apenas por quem já pratica atividades ao ar livre. Criamos um clube da consciência ambiental, enquanto o restante da sociedade segue sendo excluído do debate.


Quando o acesso ao conhecimento ambiental é elitizado, técnico demais ou distante da realidade cotidiana, o resultado é previsível: as pessoas não se reconhecem como parte do problema e nem da solução.


O vandalismo em trilhas não nasce do nada. Ele nasce da ausência de vínculo. Ninguém cuida do que não sente que pertence. Ninguém respeita aquilo que nunca foi convidado a compreender. E há ainda outro elemento que precisa ser dito, mesmo que incomode: quando vemos o nome de “Jesus” pichado em montanhas, pedras e trilhas, não estamos apenas diante de vandalismo, estamos diante de um vazio institucional. Onde o Estado não chega com educação, cultura, pertencimento e políticas públicas, a igreja chega antes. Ela oferece linguagem simples, presença constante, sensação de acolhimento e uma narrativa moral acessível. Em territórios onde falta escola crítica, educação ambiental e formação cidadã, a referência simbólica passa a ser religiosa mesmo que isso se expresse de forma distorcida, como a pichação de espaços naturais.


Isso não é um ataque à fé. É uma constatação social. Quando o Estado se ausenta, outros projetos de formação ocupam o espaço e nem sempre dialogam com preservação ambiental, diversidade cultural ou leitura crítica do território.


Por isso, insistir apenas na punição é enxugar gelo. Multas, fiscalização e repressão são necessárias, mas insuficientes. Sem educação pública contínua, popular e acessível, seguimos formando cidadãos que aprendem a temer a lei, mas não a respeitar a vida.


Responsabilizar o Estado não é isentar o indivíduo. É reconhecer que consciência não brota no vazio. Ela é construída na escola, na comunicação pública, nas políticas culturais, no modo como falamos de natureza, lazer e território.


Se queremos trilhas preservadas, precisamos de pessoas formadas para cuidar, e não apenas consumir. Se queremos menos vandalismo, precisamos de mais pertencimento. E se queremos respeito à natureza, precisamos, antes de tudo, de um projeto coletivo que ensine respeito entre as pessoas.


Como já questionava o Planet Hemp na música : “A culpa é de quem?”


Enquanto a educação seguir desigual, excludente e distante da vida real, essa resposta continuará apontando menos para indivíduos isolados e mais para um sistema que escolheu não formar.


Por: Rafael Precioso, educador antirracista e articulador de práticas de turismo inclusivo e anticolonial.


Rafael Precioso
Rafael Precioso


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